Recomeço

A noite em que parei — e o que aprendi na manhã seguinte

Anônimo5 leituras

Eu não parei por sabedoria. Parei porque não sobrou dinheiro para o combustível de segunda-feira. Foi assim mesmo, sem drama de novela: o app do banco recusou uma compra de R$ 34 no posto e eu fiquei parado, com a bomba na mão, olhando para o cartão como se ele fosse me contar uma piada.

Nas duas semanas anteriores eu tinha feito o que a gente chama, por dentro, de "último giro". Todo apostador viciado conhece essa expressão. É a mesma frase que a gente repete desde o primeiro dia: mais uma, e paro. Só que a última nunca é a última.

O que eu descobri sobre mim

Não era o dinheiro. Era o alívio químico de esperar um resultado. Cada aposta comprava alguns segundos de esperança concentrada — e eu fui ficando dependente desses segundos, como quem depende de café.

Quando eu percebi que o problema não era o jogo, era o silêncio antes do resultado, o resto começou a fazer sentido.

O que ajudou (e o que não ajudou)

  • Bloquear os apps: obrigatório. Sem isso, nada mais funciona.
  • Contar para uma pessoa: eu contei para minha irmã. Ela não deu sermão. Só ficou perto.
  • Auto-exclusão no CPF: assinei todos os que consegui. Não é infalível, mas é fricção.
  • Ir a um grupo de Jogadores Anônimos: eu chorei na primeira reunião. Continuei indo mesmo assim.

Não funcionou: prometer para mim mesmo. Nunca funcionou. Depois de dez anos apostando, eu aprendi que a minha palavra, sozinha, não vale nada quando o app está a um clique.

Como está hoje

Faz 14 meses. Eu não uso a palavra curado. Uso a palavra parado. Todo dia é hoje.


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