Recomeço

Carla, a mãe que parou (não sou a Carla)

Anônimo0 leituras

Não sou apostadora. Trabalho como voluntária na CVV há cinco anos, atendo três noites por semana. Não posso contar caso, mas essa mulher me deu permissão pra contar a dela.

Carla tinha 41, dois filhos, era caixa de mercado em Osasco. Ligou pra CVV às três da madrugada de um sábado. Chorava tanto que a gente demorou dez minutos pra ela conseguir falar. Ela tinha apostado o dinheiro do enxoval do neto que ia nascer em dois meses.

Passamos duas horas no telefone. Ela não queria se matar, ela queria uma alma humana ouvindo naquele momento. É pra isso que a linha existe.

Ela me deixou o telefone porque eu insisti que ela ligasse de novo. Ligou depois de dois dias. Um mês depois. Voltou a jogar duas vezes nesse tempo, contou. Mês passado ela ligou pra me contar que o neto nasceu e que ela conseguiu pagar as coisas do bebê com o vale do trabalho, sem apostar. Chorei desligando o telefone.

Se você tá lendo isso na madrugada e não sabe pra quem ligar, o número é 188. Fica quieto no telefone se precisar. A gente espera.


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