Carta pro meu pai que não vai ler
Pai,
Você morreu antes das bets ficarem legais no Brasil. Bom pra você. Não teve que ver essa parte de mim.
Comecei em 2020. Perdi muita coisa. Sua casa que a gente vendeu depois do teu enterro, o dinheiro foi todo pra dividir com meus irmãos, minha parte eu apostei em três anos. R$ 60 mil que você juntou trabalhando de motorista de van escolar por 30 anos.
Meus irmãos não sabem. Contei pra mãe faz seis meses. Ela chorou baixinho, disse que você teria ficado triste. Eu sei.
Parei em janeiro deste ano. Faz oito meses. Vou pagar o valor pros meus irmãos aos poucos, com juros meus mesmo. Ainda não contei pra eles.
Escrevo isso porque na tua época o vício era outra coisa, bicheiro, tio bêbado, cassino ilegal em Bar. A gente sempre achou que ficava longe daquilo. Agora tá dentro do celular.
Se você fosse vivo eu não sei se conseguia te olhar. Talvez seja bom você não ter que ver. Vou continuar tentando ser pai como você foi. Faz três meses que eu não perco a paciência com meu filho de sete anos. Antes eu perdia toda semana.
Do teu filho, ainda,
que tá tentando.
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