O motoboy de domingo
Antes de virar entregador eu era garçom em um bar da zona leste. O bar fechou na pandemia. Comprei uma moto usada, financiada, para virar entregador de aplicativo. A ideia era pagar a parcela e sobrar para as contas. Nos primeiros meses funcionou.
Como entrei
Foi no grupo dos motoboys. Um dos caras vivia comentando que ganhava um extra em cassino online de graça, só usando bônus. Eu testei. Ganhei uns R$ 40 no primeiro dia. Dava um lanche.
Um ano depois eu estava indo aos domingos entregar comida com o único objetivo de fazer caixa para apostar à noite. Não era mais motoboy. Era apostador que às vezes entregava comida para financiar o vício.
O fundo
O fundo foi discreto. Não teve tragédia. Eu perdi a moto porque não paguei três parcelas seguidas. Sem moto, sem trabalho. Sem trabalho, sem como pagar as apostas que eu tinha certeza que iam recuperar tudo. E aí eu comecei a pedir emprestado para o dono da moto, que era conhecido do bairro. O nome disso, na minha rua, tem duas sílabas.
O que segurou
Meu tio, aposentado da CBTU, foi buscar minhas coisas no dia em que eu ia ser despejado. Ele não falou nada de moral. Só disse: "vem morar comigo até você se ajeitar. Mas o celular fica comigo à noite". Foi essa frase que segurou.
Hoje trabalho de novo. De carteira. E o meu celular ainda dorme na sala do meu tio.
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