Quatro anos de tigrinho — e o dia em que meu filho me pediu comida
Eu entrei nesse mundo em 2021, quando um amigo do trabalho me mostrou um app dizendo que ele tinha ganho R$ 200 no almoço. Duzentos reais em vinte minutos. Ainda ouço a voz dele.
Nos primeiros meses foi divertido. É a fase da qual ninguém fala nos alertas — a fase em que dá certo. Se não desse certo nunca, ninguém entrava. Foi essa fase que me convenceu de que eu era bom nisso.
Quando parou de ser divertido
Não teve um dia. Foi tudo virando, aos poucos, do mesmo jeito que a luz vai baixando na sala quando o sol se põe. Eu passei a jogar no ônibus. No banheiro do trabalho. Enquanto minha esposa dormia.
O momento em que eu percebi que estava fundo foi banal. Meu filho, seis anos, chegou na cozinha em um sábado às onze da manhã pedindo alguma coisa para comer, e eu não tinha resposta. Não porque não havia comida — havia. Porque eu tinha passado quatro horas seguidas apostando em um slot e não conseguia levantar da cadeira para ir ao armário.
Contas e dívidas
- Empréstimo consignado no meu nome: R$ 18 mil.
- Cartão de crédito estourado: R$ 9 mil.
- Empréstimos com dois amigos e um cunhado: R$ 6 mil.
- Chuteira nova do meu filho vendida no OLX por R$ 80.
Não vou contar aqui como paguei tudo. Ainda estou pagando. O que interessa é que agora estou pagando parado.
Se você está lendo isso no ônibus
Provavelmente com o app aberto em outra aba. Fecha. Depois liga para a CVV se precisar. Depois procura um grupo. É por essa ordem: fecha primeiro. O resto vem.
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